sexta-feira, 1 de março de 2013

... E o Papa renunciou!

Bento XVI surpreendeu o mundo ao decidir abdicar da alta função ministerial que, desde 19 de abril de 2005, vinha desempenhando na Igreja Católica: a de sucessor do Príncipe dos Apóstolos, a de Bispo de Roma, a de Chefe da Igreja Universal, a de Vigário de Cristo na Terra,  a de Soberano da Cidade do Vaticano e, enfim, a de “Servus servorum Dei”.

O anúncio, feito em plena segunda-feira carnavalesca, no dia 11 de fevereiro, ecoou mundo afora, gerando uma reação de perplexidade entre católicos e até não católicos.

papabentoafp20130857Há, por estes dias, uma crescente onda de especulação em torno dos “verdadeiros motivos” que teriam levado o ancião Pontífice a renunciar, embora ele mesmo afirmou que assim agira em decorrência do declínio das forças físicas que o passar dos anos traz para cada pessoa. Mais ainda: Que o ministério Petrino é uma incumbência que exige, não só predisposição espiritual, mas também o alento do corpo.

Ratzinger, como o sabemos,  não foi o primeiro papa a deixar o “cajado de pastor” por um ato de renúncia. Antes dele, a História registra ao menos mais quatro casos de pontífices que renunciaram,  que devem ser analisados, é claro, sob a ótica do tempo em que tais fatos ocorreram. Fizemos alguns nomes:  Ponciano,  em 235;  Bento IX, em 1045; Gregório VI, em 1046; e Celestino V, em 1294, que, sendo monge beneditino, resolveu abdicar e voltar ao monacato.

Passando, agora, em revista, o pontificado ora findo,  parece justo recordar algumas datas e eventos mais marcantes desse reinado, a começar pelo dia 19 de abril de 2005, quando, após um rápido Conclave, ao se revelar para o mundo, mal o Sol havia se posto por trás da cúpula da Basílica de São Pedro, Bento XVI afirmou: “Queridos  irmãos e irmãs , depois do grande Papa João Paulo II , os senhores cardeais elegeram a mim , um simples e humilde trabalhador na vinha do Senhor . O fato de que o Senhor sabe trabalhar e agir mesmo com instrumentos insuficientes me consola, e acima de tudo, entrego-me às suas orações. Na alegria do Senhor ressuscitado , vamos adiante, confiantes  na sua  ajuda infalível . O Senhor nos ajudará e Maria , sua Mãe Santíssima, estará ao nosso lado. Obrigado .”

Ao escolher o nome de BENTO XVI, justificou essa “adoção” nestes termos: Cheio de sentimentos de admiração e gratidão , quero falar do motivo pelo qual escolhi o nome de Bento . Primeiramente , eu me lembro do Papa Bento XV, um corajoso profeta da paz , que guiou a igreja em tempos turbulentos de Guerra. Em seus passos eu coloco o meu ministério a serviço da reconciliação e da harmonia entre os povos . Além disso , lembro-me de São Bento de Núrcia, co-padroeiro da Europa , cuja vida evoca as raízes cristãs na Europa . Peço-lhe que nos ajude a manter firme na centralidade de Cristo em nossa vida cristã. Possa Cristo estar sempre em primeiro lugar em nossos pensamentos e ações.”

Bento XVI encerrou, no dia 28 de fevereiro de 2013, um pontificado que durou quase 7 anos, no decurso do qual ele legou à Igreja importantes documentos, sendo o primeiro a encíclica “Deus Caritas est” (Deus é amor), publicada no Natal de 2005. Em seguida, veio a “Spe Salvi” (É na Esperança fomos salvos!), de novembro de 2007. Segue-se-lhe a “Caritas in Veritate” (A Caridade na verdade), de julho de 2009, em que o Santo Padre retoma o tema do desenvolvimento humano integral na caridade e na verdade, assunto tão caro a outros papas, como Paulo VI (com a Populorum Progressio, de 1967) e João Paulo II (com a Sollicitudo rei socialis, de 1988).

Sobre a possibilidade da tão propalada renúncia, enfim efetivada no dia 28 de fevereiro, Bento XVI já havia manifestado alguns sinais, no ano de 2010, afirmando que se sentisse sem condições “físicas, psicológicas e espirituais” de liderar a Igreja, renunciaria de fato.

O trecho deste depoimento do Papa Ratzinger, aqui citado, está contido nas páginas do livro “Luce del mondo. Il Papa, la Chiesa e i segni dei tempi(Luz do mundo. O Papa, a Igreja e os sinais dos tempos, em livre tradução), escrito pelo jornalista e escritor alemão Peter Seewald.

Para finalizar, reproduzo, neste espaço de comunicação, um brilhante texto da lavra de Dom Benedicto de Ulhôa Vieira, arcebispo emérito de Uberaba-MG, em que este discorre sobre a personalidade de Bento XVI, conforme publicado foi, na edição de 24.06.2010, do Jornal da Manhã, editado naquela famosa cidade do Triângulo Mineiro: “No Papa atual, Bento XVI, temos de reconhecer sua invejável cultura teológica, doutor que é em teologia. Sua tese de doutorado foi sobre a teologia de Santo Agostinho. Além do preparo intelectual no campo da teologia, Bento XVI é “expert” na arte musical. Pianista, levou para seus aposentos o piano, que possuía quando cardeal. Isto se deve ao ambiente musical de seu lar e da sua família. Hoje, nas poucas horas vagas do seu dia, consegue deslisar os dedos ágeis na sonora brancura do teclado. E sua preferência é por Mozart. Ele mesmo recorda que, “na sua paróquia de origem, quando nos dias de festa, tocavam uma Missa de Mozart, para mim era como se estivessem abertos os céus”. Homem muito discreto, vive no silêncio de seu palácio, de modo que pouco ou quase nada se sabe de sua vida pessoal. Apenas, por indiscrição de um cardeal, com quem almoçava às vezes, antes de ser papa, sabe-se que aprecia doce e chocolate. Sem dúvida um bom gosto...”

(Prof. Osmar Lucena Filho)

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