sábado, 18 de fevereiro de 2012

"Eu me apaixonei por Piquet Carneiro!"

(Pe. Teixeira, em junho de 2003, no curso de uma entrevista concedida ao Prof. Osmar Lucena Filho, memorialista e escritor)
EM RECORDAÇÃO PÓSTUMA DO PE. FRANCISCO ALVES TEIXEIRA REPRODUZO, NESTE ESPAÇO DE COMUNICAÇÃO, QUE É O SITE DO INFORME GERAÇÃO, UMA ENTREVISTA QUE O SAUDOSO SACERDOTE ME CONCEDEU,  NO MÊS DE JUNHO DE 2003, NO SUGESTIVO RECINTO DA NOSSA IGREJA MATRIZ PAROQUIAL, EM PLENA FESTA DO NOSSO INSIGNE PADROEIRO, O SAGRADO CORAÇÃO DE JESUS.

O Pe. Francisco Alves Teixeira é natural de Maranguape, tendo nascido em 1928. Foi ordenado em 1958,  e  paroquiou nossa terra entre 9 de fevereiro de 1959 e janeiro de 1966, sendo substituído pelo Pe. Agostinho Paulino de Melo.Pe. Teixeira, então vigário de Piquet Carneiro,  com um grupo de crianças da 1ª Comunhão, no ano de 1960.

A ENTREVISTA - LOCAL: IGREJA MATRIZ - DATA: JUNHO DE 2003
ENTREVISTADO: PE. TEIXEIRA - ENTREVISTADOR: OSMAR LUCENA FILHO

Osmar Filho: Nós nos encontramos na igreja matriz do Sagrado Coração de Jesus, e vamos proceder ao nosso documentário intitulado "Paróquia de Piquet Carneiro: Depoimentos." Conosco, o Pe. Francisco Alves Teixeira, 3º vigário na linha de sucessão, que vai nos falar, evidentemente, da sua vida de homem de Igreja , desde o seu ingresso no célebre Seminário da Prainha; da sua ordenação sacerdotal, sobre o bispo que o ordenou, acerca da tomada de posse aqui em Piquet Carneiro, e em relação a outras informações que o nosso entrevistado julgar interessantes e oportunas para este nosso registro histórico. Então, Pe Teixeira, sinta-se à vontade para suas considerações preliminares.
Pe. Teixeira: Em primeiro lugar, devo dizer que eu me ordenei sacerdote no dia 30 de novembro de 1958, depois da seca. O bispo que me ordenou foi dom Antônio de Almeida Lustosa. E, depois de um mês de férias, eu cheguei para ele, e ele me disse: Teixeira, você é o único dos 12 ordenados  ( a minha turma era composta de 12 padres ) que vai receber uma paróquia; uma paróquia muito boa - me dizia dom Antônio - onde você vai ter a oportunidade de ler jornal todos os dias, conviver com um povo bem acolhedor, muito piedoso; e fez um apanhado geral da paróquia que eu ia assumir para, no fim de tudo, dizer: " no próximo domingo, dia 9 de fevereiro, você vai assumir a Paróquia de Piquet Carneiro." E eu não tinha outro caminho, senão obedecer ao meu bispo. E me desloquei, naquela época, numa caminhoneta do DNER, que me trouxe até aqui. Ao chegarmos a Senador Pompeu, o Banabuiú estava cheio de barreira a barreira.

Mas aí, muito providencial, o Pe. Irineu tinha botado um carro do outro lado, e aqui eu cheguei, mais ou menos, de 9 para 10 horas da noite, de forma que, quem me recebeu, foram a dona Odília e o Chico Policarpo, à luz de um motorzinho deixado pelo Pe. Alberto na paróquia. E, para mim, tudo era novidade! Eu não conhecia nada. O meu mundo era entre Maranguape e Fortaleza. A partir daí, eu aqui cheguei e encontrei um povo hospitaleiro, um povo bom, e um povo que me acolheu com muita simpatia. Com o passar dos dias, eu passei a sentir a pobreza da comunidade e não titubeei: arregacei as mangas e comecei a trabalhar de outra maneira , que não a vida religiosa; dava, é verdade, conta do meu paroquiato, mas, também, procurei sobreviver sem ônus para a Igreja. Daí porque eu passei logo a pensar no colégio Sagrado Coração de Jesus, cujo nome foi dado pela esposa do prefeito, dona Maria Luiza Pessoa Aires, e deste colégio eu fui diretor durante quatro anos , e formamos a primeira turma de 4ª série ginasial, que hoje equivale à 8ª série; (...) e pessoas que estão ocupando, hoje, posição de destaque e formadas ... Aquele colégio deixou algumas pessoas em boas condições, como o Dr. Ivanildo Franco, a Dra. Valdelice, e muitos outros que, por ali, passaram. Foi ali que eu praticamente comecei o meu trabalho social dentro da Igreja. Também não esqueci, é claro, as coisas da Igreja: as festas religiosas, como a festa do Sagrado Coração de Jesus que, naquela época, rendeu duzentos contos de réis e, com esse dinheiro, nós fizemos o piso da igreja. O Pe. Alberto , meu antecessor, tinha feito as torres da igreja e ainda estavam os andaimes colocados ali; o Pe. Freire fez esta igreja, fez este templo... Eu até tinha um retrato dele, com o Pepé, no andaime, lá em cima, na parede. E cada um de nós deu a sua colaboração, fez a sua participação. O Pe. Freire, repito, transformou a antiga capela do Jirau em Matriz; o Alberto fez as torres; eu fiz o piso do corpo da igreja, e outra parte, na sacristia; o Pe. Agostinho, que me substituiu, trocou as janelas de madeira por janelas de combogós... Hoje, nós temos aí uma igreja bonita, graças a participação das pessoas; uma igreja limpa, cheirosa, de muito bom gosto...

Osmar Filho: O senhor - permita-me fazer esta interferência!  - assumiu nossa paróquia basicamente ali no redemoinho das inovações advindas do Concílio Vaticano II. Poderia recordar para nós, máxime para este nosso documentário, quando celebrou a primeira missa em vernáculo, em língua portuguesa? Vossa Reverendíssima, uma vez, me disse: "Eu costumava inovar, mesmo antes de o Concílio iniciar." Fale um pouco sobre essas tais inovações e o que representou o Concílio para o senhor, como padre, como homem de Igreja, como cristão.
Pe. Teixeira: Quando aqui cheguei , em 1959, ainda se celebrava na língua latina, e de costas para o povo; apenas, uma vez por outra, dentro da liturgia, o sacerdote se virava para o povo e dizia: "Dominus vobiscum", que significa "O Senhor esteja convosco!"... E o resto, tudo, era em latim. Com as inovações do Concílio Vaticano II , os dois primeiros padres da Diocese de Iguatu que inovaram alguma coisa, foram o Pe. Elmas (vigário de Milhã) e eu. Eu fiz logo o altar "versus populi" (voltado para o povo) e comecei a celebrar a missa em português. Por escrúpulo de consciência, eu ainda fazia a consagração em latim. Hoje tudo mudou, não é? Está todo mundo celebrando em português. Isso foi uma coisa vantajosa para o povo; não foi por inovação puramente simples, e, sim, para uma maior compreensão das coisas de Deus. Agora... outras coisas que nós introduzimos, pois o Espírito Santo sopra onde quer, foi o problema da batina. Naquela época, eu cheguei aqui de batina preta e, aí, era uma obrigação muito violenta, e fomos nós que conseguimos, devagarzinho, é... deixar o sacerdote à paisana. Nesse sentido, eu tive um forte diálogo com Dom Mauro (o bispo diocesano de Iguatu) porque eu fui para o retiro, e fui tomar café, sem a batina, e ele me chamou à parte para me dizer que o hábito do sacerdote era a batina; insistiu comigo para que eu voltasse a usar a batina, e eu disse que não a vestiria, a menos que ele me desse um argumento de que eu estava errado... e , na hora, do almoço já havia uns 4 ou 5 padres sem batina.. (risos). E hoje até o senhor bispo anda sem batina! (mais risos).

Osmar Filho: Isso, claro, reflexo da evolução dos tempos... Fale-nos, agora, sobre estas iluminarias (as da nossa igreja matriz). Noutra ocasião, o senhor me deu informações sobre como acontecera a aquisição delas. Em que época, e por qual preço, elas foram adquiridas? Pouca gente, aqui, em Piquet Carneiro, sabe da preciosidade histórica que elas escondem...
Pe. Teixeira: Em 1958, quando eu me ordenei, eu era dotado de espírito observador, curioso;  e lá, no velho seminário da Prainha, por trás de uma parede, eu descobri essas duas iluminarias: uma, com 6 lâmpadas; e outra, com 3 lâmpadas. Essas iluminarias são muito valiosas, visto que elas são de metal precioso, e eu resolvi "roubar" as duas iluminarias - se assim eu posso dizer: "roubar"! ... (risos). Mas a consciência não me deixou tira-las às escondidas, porque não dava certo... O administrador do seminário era o Pe. Arruda, e eu cheguei a ele com elas (as iluminarias) todas cheias de teia de aranha, e disse: Pe. Arruda, estas iluminarias estavam ali abandonadas! E...  o senhor poderia me vender para eu botar na matriz de Piquet Carneiro? E ele: Não! Elas fazem parte do patrimônio do Seminário. Eu disse: Mas, Pe. Arruda, esse patrimônio jogado ali à mercê das aranhas?! Depois, com muita insistência, eu consegui pagar cinco cruzeiros , cinco mil réis, que vocês talvez não saibam, esses cinco mil réis, hoje, é menos de cinco centavos. Então, foi por quanto eu comprei essas iluminarias. Mandei refazer a instalação elétrica e graças a Deus elas estão aí per omnia saecula saeculorum.. (risos).

Osmar Filho: (Pe. Texeira... sobre o mosaico... nós podemos dar uma descida até lá... (Conduzindo, agora o entrevistado, do "presbitério" para a "nave central" da igreja matriz): No livro do Tombo, que é o livro no qual os vigários vão deixando a crônica do seu vicariato, eu já tive a oportunidade de ler e de reler, por sinal num texto de sua lavra, que o piso, aqui da nave, foi posto no ano de 1960. Estou certo?
Pe. Teixeira: Seguramente, Basinho. É por aí, por volta de 1960. Tudo fruto, como já falei, do resultado da festa do nosso padroeiro. Na nave; e outra parte, na sacristia.

Osmar Filho: Perante a história da educação local, coube ao senhor o mérito de haver fundado, e dirigido, o ginásio Coração de Jesus, que foi a primeira escola a ministrar o ensino fundamental em Piquet Carneiro. Quem foram seus colaboradores, professores, e corpo técnico-administrativo, naquele educandário, então nas suas nascentes?
Pe. Teixeira: O Dr. Alfredo Franco, a Salete, minha sobrinha; a Zenilde e a Zulena de Paula. O sargento Gileno, do Exército, que era o professor de Educação Física... Essa foi a 1ª turma...

Osmar Filho: Agora, vamos ao "altar" , voltando, assim, mais uma vez, nossa atenção, para a esfera do religioso, no enfoque, está claro, à história da nossa igreja matriz: o altar-mor data de época anterior a seu paroquiato, é isso?
Pe. Teixeira: Exatamente. É uma obra do Pe. Alberto Oliveira. O Pe. Alberto era pároco em Boa Viagem, se envolveu em política por lá e, quase por castigo, dom Antônio colocou ele aqui. Mas o Pe. Alberto foi, assim, um vigário muito esforçado, muito trabalhador... Morava, é lógico, lá na casa paroquial ... e aconteceu um fato pitoresco... O seu Nêgo, que todo mundo conheceu, os mais antigos, disse ao Pe. Alberto que ele fechasse a porta da casa dele (no caso, a paroquial) que ele, Nêgo, passava todos os dias, às cinco horas da manhã, e a dita porta estava aberta... pois aqui era lugar que passava trem, e dava muito bandido, etc. O Pe. Alberto ficou com muito medo. Quando foi á noite , havia uma ruma de lâmpada lá na casa paroquial, que o Pe. Freire tinha deixado, e ele, Pe. Alberto, começou a jogar essas lâmpadas em cima da casa do seu Nêgo... no outro dia, o Nêgo mudou de casa, com medo que fosse "alma" ... (risos) O pessoal dizia que lá, na paroquial, apareciam visagens, davam-se fenômenos sobrenaturais, essas coisas... Mas eu nunca acreditei! Morei ali tantos anos, e jamais vi algo estranho! O que se sabe é que, na época da grande virada de trem, aquela casa se transformou num verdadeiro hospital: as equipes médicas atuavam lá, cortavam pés, pernas, braços das vítimas, isso sem anestesia...

Osmar Filho: Seria interessante que o senhor mencionasse agora quais os movimentos religiosos aqui existentes na época do seu paroquiato; quem eram seus colaboradores mais estreitos; enfim, como era a paróquia de Piquet Carneiro naqueles já distantes anos?
Pe. Teixeira: Quando aqui nós chegamos, havia estes movimentos: o Apostolado da Oração, as Mães Cristãs e os Vicentinos. Depois eu criei, entre as crianças, a Cruzadinha Infantil. E durante esse tempo todo, 59 a 65, havia, nas primeiras sextas-feiras, a devoção ao Sagrado Coração de Jesus. Aconteciam também as reuniões mensais do Apostolado da Oração, que era um movimento muito entusiasmante para nós. Assim como também as Mães Cristãs. Eu sempre tive uma deferência muito especial por mãe, e, por duas vezes, eu estive muito aborrecido, e ia até sair de Piquet Carneiro; queria sair daqui, e aí as mães se reuniram e, coletivamente, pediram que eu permanecesse. De tal modo que estes, Apostolado e Mães Cristãs, foram os movimentos que tiveram sempre mais em evidência durante meu paroquiato. E, lembrando de pessoas, tinha a dona Chaga, a dona Perpétua, o Joca Luzia, o Joca Marques, a dona Nilzete, a mãe do Assis Carvalho, que também era mãe cristã... Além de sua mãe, dona Letícia; havia a dona Maria do Carmo...  E muitas, muitas outras.  São tantas!

Osmar Filho: Muito bem! Mas há espaço ainda, para suas considerações finais, o arremate. Algo a relatar a mais?
Pe. Teixeira: Olhe, tem algo que as pessoas podem até não aceitar, não compreender. Mas eu me apaixonei por Piquet Carneiro. Eu tenho facilidade de me apaixonar! É tanto que, já lá se vão quase 40 anos que eu daqui sai, mas eu não passo um ano sem vir aqui. Eu sempre venho a Piquet Carneiro, porque eu gosto daqui. Eu gosto do povo. Houve , naturalmente, um período muito delicado, em que eu entrei na política, e houve desgaste da minha parte, houve desgaste da parte de outras pessoas; mas a política, para mim, hoje, já não mais existe; eu sou um homem político, mas eu não sou mais um político-partidário. Já transferi até meu título para Mulungu, lugar onde moro, na serra do Baturité. Foi nesse terreno, o da política partidária, onde eu me senti mais desgastado. Eu tinha muita aceitação na comunidade. Enquanto eu fui vigário, não aceitei fazer política, mas depois que eu me tornei leigo, eu entrei na política e trabalhei, aqui, com o Dr. Alfredo Franco. Mas também achei que não é mais o meu campo, não quero entrar mais nesse campo; política... temos que deixar para o pessoal mais novo.

Osmar Filho: Mas esta é a sua concepção hoje? (risos)
Pe. Teixeira: É a minha concepção hoje! Eu apenas sou político para dar o meu voto a quem eu achar que mereça.

Osmar Filho: Sou-lhe muito grato pela gentileza com que o senhor atendeu a minha solicitação e me concedeu esta entrevista; este depoimento vai ficar arquivado num banco de dados, em arquivos meus, que, oportunamente, pretendo passar à tutela do Departamento Municipal de Cultura; de repente, no futuro, quem sabe, um pesquisador, um estudante, possa dele se valer na efetivação de seus trabalhos. Será material de grande valia a quem se dê o trabalho de conhecer mais sobre a Paróquia de Piquet Carneiro, do começo dos anos 60. Então, Pe. Teixeira, o meu muito obrigado!
Pe. Teixeira: Eu queria ainda dar uma palavra: eu admiro muito, Basinho, esse seu trabalho de procurar registrar os fatos históricos. Isso é muito bom! Você vê, por exemplo, a galeria dos vigários, que está ali, que é fruto do seu trabalho; e já saiu um livrinho publicado por você (sobre o Jubileu de Ouro da Paróquia) ; eu tenho esse livro lá em casa. Porque não é todo município que tem uma pessoa do seu quilate para deixar registrados os fatos, a história do seu município; apesar de você ser bem mais novo, mas é um pesquisador inteligente. Está de parabéns você, e está de parabéns o município. Você deve continuar assim!

Osmar Filho - Muito obrigado!
Pe. TeIxeira - Eu sou quem lhe agradeço.

2 comentários :

  1. Caro Osmar Filho, parabéns pela entrevistas. Sem dúvida é uma contribuição imensa para a história da igreja. Conheci pessoalmente o padre Teixeira. Era um homem de muita sabedoria. Sua homilia nos deixava muitos ensinamentos e experiências para toda a vida.

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    1. Obrigado, Luiz, por suas gentis palavras. Pe. Teixeira cumpriu sua missão. Foi exemplo de homem dedicado às coisas de Deus. Com a Igreja, na antífona de Missa de Requiem, só nos resta desejar "Requiem aeternam, dona ei, Domine; et lux perpetua luceat ei!

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"O sucesso normalmente contempla aqueles que estão ocupados demais para procurar por ele"