quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

Pelos Caminhos Da História - 7 - O Círculo Operário (parte 2

APOGEU E DECADÊNCIA

    Na edição precedente, tratei do movimento circulista (Círculo Operário),  que teve seu apogeu, em todo o Brasil, nas décadas de 40 e 50 do século passado. Em Piquet Carneiro, não foi diferente: criado em  19.03.1949, esta verdadeira "cooperativa" de  trabalhadores cristãos (católicos)  vivenciou seu período de ouro até os inícios do anos 1960, para, em seguida, mergulhar numa fase de arrefecimento de ação, até se extinguir em  meados de 1994.
    Todavia, folheando os livros de atas, do período que vai de 1949 a 1975, percebe-se que, em nenhuma etapa de sua existência, o Círculo Operário de Piquet Carneiro revelou-se,  tão dinâmico e capaz,  quanto na época em que teve,  na pessoa do Revmo.  Pe. Antônio Pinheiro Freire -  ele próprio um grande bem-feitor da classe operária e dos menos favorecidos de nossa terra -,  o seu Assistente Eclesiástico.  De fato,  entre 1949 e 1955, época que coincide com o seu vicariato, novos sócios foram-se incorporando à entidade supracitada,  de modo que, em pouco tempo, o Círculo já era um grupo bastante numeroso e coeso. Naquela ocasião, as atividades da Mesa Diretora resplandeceram,  em todos os sentidos,  visando à grandeza e ao progresso do circulismo. O operário nele  admitido passava a receber, além da assistência agrícola, o socorro médico-hospitalar,  a orientação religiosa, a instrução educativa (escola para os filhos) e a diretriz social (no campo do Direito e da Política).
    Como se vê, os trabalhos na "área social"  começaram, em Piquet Carneiro,  bem antes mesmo de nossa terra passar a ser,  em 1957,  sede de município,  em decorrência, exatamente,   das atividades do Círculo Operário!


UM PRÉDIO POLIVALENTE!

     Construído, por etapas,  em ritmo de mutirão, na década de  1950, o  prédio-sede  não serviu, apenas, para, em seu salão-mor, abrigar os participantes das "sessões" circulistas:  durante sua existência, manteve-se como um edificio "polivalente", passando a ser, desta maneira,  o "locus",  para  eventos de natureza sócio-religiosa-cultural,  os mais diversificados, tais como:  escola (durante muitos anos), teatro (realizado pelos estudantes e pela Paróquia);  cinema (sobremodo nos anos 1960/70);  festas de término de curso (Ginásio Sagrado Coração de Jesus);  escolha da Rainha Cenecista,  da Rainha do Algodão, etc;  solenidade de posse de prefeito (Antônio Fernandes Barbosa, o Pité, em  24.03.1963);  sede de sessão eleitoral, no curso destes anos:
  1954,1958,1962,1966,1970,1972,1976,1982 e 1988. Ainda em fase de construção,  emprestou seu amplo salão para servir de "necrotério" às vítimas do grade desastre de trem, de 17.12.1951.
Impossível  também não lembrar que as manifestações,  nas datas cívicas e religiosas,  eram vivenciadas, com grande brilho e  intensidade, nos espaços do Círculo Operário:   Dia das Mães, Dia do Trabalho, Dia dos Pais, Dia da Pátria,  Dia das Crianças, Páscoa, Natal, entre outros.   Serviu o vestusto edificio, igualmente, de espaço para a realização de conferências;  comportou,  nos prédios contíguos ao salão-mor, algumas  escolas municipais ( nas décadas de 1960,70 e 80);   e abrigou os alunos do antigo Movimento Brasileiro de Alfabetização (MOBRAL), nas décadas de 1970/80.   Por fim,  entre 1985 e 1990,  foi sede do Lions e do Leo Clube de Piquet Carneiro.

UM CASARÃO MAL ASSOMBRADO?
    Inóspito e abandonado,  o velho casarão ainda ostentou fama de prédio mal-assombrado, pois  era voz corrente afirmar-se isto:  quem,  noite alta,  por suas adjacências passasse, era forte candidato a ouvir  "manifestações estranhas" , que ecoavam de sua ampla sala:  gemidos, gritos e  ais!  De resto, as "marmotas" que,  à luz do sobrenatural,  o "imaginário popular"  houvesse por bem "criar e fantasiar",  lá,  de certo,   aconteceria...

AGOSTO DE 1994: A DEMOLIÇÃO

    As fortes chuvas de abril de 1994  ocasionaram  a queda de  uma das "tesouras",  e o consequente desmonoramento de grande parte do telhado;  tragédia essa  que abriu, no teto do edifício, uma gigantesca cratera. Por outro lado, o trabalho silente e devastador  dos cupins  (a mastigar caibros, ripas, portas e janelas!);  as infiltrações nos alicerces (comprometendo,  seriamente, a sustentabilidade do edifício!);  tudo isto, de certa forma,  já sinalizava o fim  da existência de um prédio que, em dias pretéritos, ostentara a glória de haver sido o espaço-mor, no qual se desenrolava a "vida social"  dos piquet carneirenses.
    Diante desses fatos, o Governo Municipal (à época, sob a égide de Lucilda Barros Beserra), aliado à Presidência local do Círculo Operário (Sargento  Luiz de Souza era o Presidente),  buscou dialogar com a sede-mãe da Federação dos Círculos Operários, em Fortaleza, em vista de alguma solução. No transcurso da última conversa que mantiveram,  chegou-se  à seguinte conclusão:  como a Federação e a Presidência local não podiam oferecer o montante de que o edificio precisava em face de uma grande reforma (visto que os gastos,  para  a  tal reforma, de tão altos, equivaliam ao que seria aplicado numa  "nova construção"),   o prédio seria, então, demolido  (estava-se em agosto de 1994),  e o terreno passaria ao usufruto da Prefeitura, em cujo área seria construída a sede de uma nova instituição (pasta) administrativa:  Educação?  Saúde?  Cultura? ...
    Verdade é que três administrações se foram (Lucilda, Ivanildo e Alci), sem que o terreno fosse utilizado para o fim colimado.  Decorrido, pois,  o tempo fixado para essa construção,  o espaço físico (terreno) voltou às mãos da família do doador, que havia sido o sr Joaquim Rodrigues de Paula (Quinzinho).
    Cumpre-se, ainda,  esclarecer,  que o prédio do Circulo Operário nunca pertenceu, como muitos chegaram a imaginar,  ao patrimônio da Paróquia de Piquet Carneiro!  Pertencia, isto sim, ao patrimônio do próprio circulismo; movimento este,  como vimos, de caráter sindical,  que, da Paróquia,  recebia, apenas, o apoio de que necessitava para o deslanche de suas ações,  mediante a presença, nas sessões,  do chamado "Assistente Eclesiástico", isto é,  o vigário local.

Até!

Osmar Lucena Filho - Professor e Historiador

Um comentário :

  1. A essência da demolição do Círculo Operário está na ingnorância de quem administrava e no oportunismo e ganância da administração da época. Pois, infelizmente, em muitos municípios os gestores estão preocupados em apenas satisfazer o prazer da sociedade, gozo este momentâneo e irresponsável. Concordo quando dizem que a educação é a base de tudo, porque hoje as pessoas ainda vêem a pasta da cultura simplesmente como uma agenda de festas (mela-mela, arrasta pé no meio da rua, etc.). Enquanto isso a história, que faz parte do princípio humano vai ficando desvalorizada e descompromissada por todos nós. Talvez pensem que isso seria distribuir pérolas aos porcos.

    Fica aqui o meu comentário, embora crítico, porém sem a intenção de satanizar ou santificar fariseus os samaritanos.

    Abraços.

    Denes Marques

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"O sucesso normalmente contempla aqueles que estão ocupados demais para procurar por ele"