quarta-feira, 9 de setembro de 2009

Miguel Calmon/Ibicuã - Terra do Cangaço

    A Vila de Ibicuã chamou-se inicialmente São Bento, seguindo a vontade do Cel. Zequinha Contendas, que o teria feito em decorrência da grande quantidade de cobras que se arrastavam por aquelas terras; tendo o mesmo rebatizado o distrito com o nome de Miguel Calmon, em homenagem ao engenheiro que construiu ali a Estação Ferroviária, de quem ficou muito amigo.
    Miguel Calmon foi oficialmente reconhecido como Distrito por Decreto Estadual datado de 01-09-1897, e em 23-09-1907 teve seu território anexado ao município de Senador Pompeu, quando era Presidente (Governador) do Estado do Ceará, Antonio Pinto Nogueira Accioly; e você deve estar se perguntando que autonomia teria um Coronel, que não era uma patente reconhecida, para colocar e mudar o nome de um povoado a seu gosto. Primeiro, o fato de ser coronel, termo herdado da Guarda Nacional, quando da sua criação, que era atribuído ao líder maior de uma comunidade, contando o mesmo com níveis subordinados ao seu poder; tendo sido extinta a Guarda Nacional, permaneceu vivo o termo e o poder dos coronéis para designar os “donos”, líderes políticos e econômicos de determinado território – eram os manda-chuvas da época.
    Em segundo lugar, o Cel. Zequinha gozou por vezes o poder de chefe maior do Município de Senador Pompeu, bem como seu filho, Franco Ferreira de Magalhães, elegeram-se Prefeitos por diversos mandatos. Assim sendo, mudar um nome não era lá muita coisa se pensarmos vislumbrando esse ângulo.

JOSÉ FERREIRA DE MAGALHÃES: Coronel Zequinha Contendas

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    Filho do Coronel Severino Ferreira de Magalhães, o Coronel Zequinha tinha residência fixa no Distrito de Miguel Calmon, hoje Ibicuã.
    Sua trincheira, bem como pude constatar ser literal, situa-se no Sítio Contendas, e uma importante conotação daquele prédio que resiste às agruras do tempo, é o seu sótão, com piso de madeira e janelas por todos os lados, sendo exatamente ali o local onde ele guardava as armas, um ponto estratégico, de onde se podia observar todos os arredores da residência.
    Ao lado dos seus irmãos e correligionários políticos, também coronéis do sertão, era o governador de toda essa região. Seu poder era imensurável e sob nenhuma hipótese questionado, tendo como único inimigo quase à altura, o seu irmão, Coronel Ananias, com quem disputava o poder político, mas nunca ameaçado de verdade, pois sendo ou não Prefeito de Senador Pompeu, mantinha-se inabalável.
    Reunia muito bem, após anos de prática, as características de um líder, apesar de tirano, tinha um carisma que faziam dele único. Seus irmãos, apesar de também serem líderes, não dispunham desse carisma, mas ainda assim, Ananias tinha uma certa dominância sobre o município de Senador Pompeu; Fenelon e Filemon Ferreira de Magalhães, tendo o primeiro desempenhado entre o período de 2 de março de 1899 a 8 de maio de 1903, o cargo de Intendente Municipal da Vila de Benjamin Constant, hoje Mombaça, nomeado em 2 de março de 1899, pelo então Presidente do Estado, Antonio Pinto Nogueira Accioly; Filemon chegou a presidir a 12ª Câmara de Vereadores daquela cidade, tendo conduzido, em 25 de outubro de 1896, os trabalhos de eleição da primeira Câmara de Vereadores do recém criado município de Senador Pompeu.

Sedição de Juazeiro

 

  O fato histórico cearense conhecido por Sedição de Juazeiro teve como idealizador o Dr. Floro Bartolomeu; e Pe. Cícero Romão Batista, seu correligionário político, foi o responsável pela execução devida.
    O movimento tinha por objetivo derrubar o Presidente (Governador) do Estado, Coronel Marcos Franco Rabelo, em decorrência da oposição política em que se viam os mesmos, sendo o Pe. Cícero pertencente ao partido e defensor da Oligarquia Accioly, motivo pelo qual vinha sofrendo intervenções e repressão política.image
    A Sedição teve seu marco inicial quando da destituição de Pe. Cícero do cargo de Prefeito de Juazeiro do Norte, feita por Franco Rabelo (o que estava sob seu julgo e poder), desencadeando a inconformação e revolta do mesmo, que em conjunto com Floro Bartolomeu, Gal. Pinheiro Machado, Dr. Aurélio de Lavor, e o Dr. José de Borba, criaram uma Assembléia Legislativa, constituindo-se um Estado dentro de outro estado, declarado por eles autônomo e isento do poder representado pelo Presidente do Estado do Ceará, o que contou com o total apoio do então Presidente da República Hermes da Fonseca, que era oposicionado pelos rabelistas.
    Nesse contexto, Pe. Cícero reuniu um grupo de mais de 1.000 jagunços que lutaram em defesa da sua causa; avançando passo-a-passo em direção à Fortaleza, para depor a custo de fogo, Franco Rabelo, que, com o apoio dos Coronéis Zequinha, Fenelon e Philemon, e ainda dos homes do Cel. Gustavo, de Lavras da Mangabeira, chefiados pelas tropas legalistas, comandadas pelo Capitão J. da Penha, montam estrategicamente a última barreira ao avanço dos jagunços de Pe. Cícero, em Miguel Calmon.
    José da Penha, capitão renomado, nasceu em 13 de maio de 1875 na Cidade de Angicos, no Estado do Rio Grande do Norte, e começou a estudar no Colégio Militar de Fortaleza quando tinha 5 anos, em 1880; posteriormente foi para o Rio de Janeiro e seguiu carreira militar. Entre um dia e outro do combate em Miguel Calmon, J. da Penha ignora os conselhos de todos e sai para vistoriar as trincheiras, oportunidade aproveitadimagea pelos jagunços que ali tiraram a sua vida, dando fim ao combate.
    Logo após, sem mais nenhum empecilho, as tropas de Padre Cícero, lideradas por Floro Bartolomeu, seguem tomando todas as cidades no caminho rumo à Fortaleza, onde enfrentam resistência das autoridades e da sociedade, que veem-se vencidos, restando apenas aclamar aqueles que resistiram até o fim, o que é possível constatar em notícia da Folha do Povo de 25.02.1914, saudando o Cel. Fenelon Magalhães, de passagem pela capital cearense, como herói.
    Havia no local onde deu-se a morte do Cap. J. da Penha um Cruzeiro erguido em sua homenagem, onde também foram enterrados muitos outros de sua tropa. Hoje já não se encontra mais de pé, vítima do vandalismo resta no local apenas uma pedra de mármore, tendo sido até mesmo a cruz saqueada por malfeitores.

Por Cinésio Lima

Um comentário :

"O sucesso normalmente contempla aqueles que estão ocupados demais para procurar por ele"