sexta-feira, 3 de julho de 2009

Entrevista: Dom Frei João José da Costa

gerAção - Já se passou 1 mês desde a sua posse e 3 meses desde a sua ordenação como Bispo da Diocese de Iguatú. Nesse pouco espaço de tempo, que deficiências o Senhor encontrou na Diocese como um todo e quais serão seus principais focos para solucioná-las?

D. João
- Eu não diria assim “deficiências”. Hoje na Diocese de Iguatú eu constato mais um “potencial” do que deficiência; primeiro começando pelo clero, um clero muito animado, jovem, as igrejas sempre muito bem organizadas; também do ponto de vista do rebanho de Deus, tantos leigos engajados com as pastorais, movimentos, catequese. Vejo com muito otimismo e esperança a Diocese como um todo. A consciência dos cristãos católicos é muito profunda, então se você me pergunta desafios eu olharia mais para o potencial que a igreja tem. Claro que também tem seus desafios, como por exemplo: como articular melhor as pastorais, os movimentos em todas as CEB's, depois como realmente se organizar em uma visão de pastoral conjunta, também como se elaborar, e é o meu objetivo, um plano de ação para a Diocese. Neste sentido que eu vejo como desafio, formar um plano e principalmente, implantar em toda a Diocese, que hoje em dia é tão presente em outras dioceses do Brasil, a Missão Continental. Hoje a dimensão missionária é algo muito grande, e acima de tudo fazer com que a igreja de Iguatu viva aquilo que foi instituído em Aparecida no encontro Latino-Americano e Caribenho, de que toda a igreja deve ser uma igreja do discipulado, mas também uma igreja missionária.

gerAção – Com relação à juventude, sabe-se que existem várias pastorais, entre as quais podemos destacar a PJ, PJMP, PJE. Quando o Senhor fala em juventude, como o Senhor vê essa juventude? Qual o papel dela nessa transformação que o Senhor disse que a Diocese precisa?

D. JoãoO plano da Diocese é que a gente articule a juventude como um todo, respeitando as suas especificidades. Quem é da PJMP, PJ, EJC, está muito bom, bem como outras iniciativas. Agora, penso que esse trabalho de forma articulada e integrada será uma grande força para a Diocese. Além do mais, incentivar e despertar na juventude esse desejo, esse gosto, também pelas realidades sociais e políticas. Penso que o momento seria de articular essas forças, esses organismos, fazendo com que essa juventude realmente se engaje no Evangelho concreto neste mundo, transformando essa realidade, não nos acomodando com o mundo como está, nem com a política, nem com as realidades sociais, mas nos comprometendo para que se torne realmente um mundo novo. “A nossa fé deve estar comprometida com a vida. Cada cristão deve ser fermento na massa, sal da Terra e luz do mundo.”

gerAção – A igreja sempre desempenhou um importante papel na formação política dos católicos, e ultimamente de maneira mais intensificada. Ainda assim, a maioria dos eleitores é desinformada e ignora a necessidade de uma pré-avaliação antes do voto, elegendo representantes sem se certificar se o mesmo reúne qualidades necessárias ao exercício da profissão pública. Qual a sua posição a esse respeito? Como a igreja pode contribuir na mudança dessa realidade?

D. João Queremos implantar os programas, as iniciativas para ajudar na formação do Povo de Deus, nunca indo pelo caminho da política partidária. A gente quer ajudar a formar um povo cidadão, e um povo cidadão aprende muito bem a eleger seus representantes. Eu penso que quando a gente forma para a cidadania a gente está fazendo também uma formação política séria e sólida, no sentido de apresentar sempre instrumentos e iniciativas que ajudam o povo a fazer um verdadeiro discernimento principalmente no momento eleitoral, mas penso que a política é uma realidade permanente, inclusive nós temos hoje a grande campanha da Ficha Limpa, justamente para tentar evitar que políticos que estão administrando desonestamente se mantenham no poder. A igreja, a juventude e o povo mais informado, tem que abraçar essa grande causa, no sentido de preparar bem os cristãos e a sociedade nessa formação política, que é uma necessidade para uma sociedade nova, porque se o dinheiro público não é bem aplicado pelos gestores emperra o andamento da sociedade de qualidade. O povo tem que eleger políticos honestos, mas também precisa ser honesto, não dando seu voto em troca de favores. “Eu acredito muito na juventude. Se a nossa juventude de hoje despertasse para tudo isso, nós teríamos num futuro muito próximo um mundo transformado.”

gerAção – Há um ditado que diz “a voz do povo é a voz de Deus”. O Senhor concorda com esse ditado? E, se concorda, acha que o povo está deixando de exercer essa voz?

D. João – Eu tenho a impressão de que nós estamos negligenciando bastante. Se a gente se deixasse levar realmente pela vontade de Deus, a gente deixasse de se levar por vontades próprias, interesses próprios. Você, por exemplo, vota em um governo que vai fazer o bem a maioria, que vai fazer realmente justiça ou porque vai facilitar aqui ou ali, vai conceder emprego, dar determinadas regalias a A, B ou C. Se estamos nos deixando levar por interesses, então não podemos dizer que a voz do povo é a voz de Deus. Que vontade o povo tem? Brota da justiça, da fraternidade ou de interesses pessoais?

gerAção - Como o Senhor vê o movimento ecumênico dentro da igreja? Que avanços e regressões destaca a respeito?

D. João – O ecumenismo é a palavra de ordem. Vai além de uma questão religiosa, e sim um grau de civilidade. Pelo amor de Deus, porque você acredita diferente vai ter que obrigar o outro a ser diferente? Ou tampouco andar falando mal um do outro. A religião foi feita para se viver e não pra se criticar. Eu acho que os católicos não devem, em hipótese alguma, criticar os evangélicos, protestantes e vice-versa. Cada um deve anunciar o Evangelho sem condenar o outro. Isso é uma atitude perversa. Eu acho que um cristão não anda destruindo os outros, mas anunciar a verdade de Jesus Cristo, respeitando a maneira de professar a sua fé. Religião é uma proposta e não uma imposição, e tudo que é imposição não vem da parte de Deus.

gerAção – Durante a sua vida religiosa, qual o maior ensinamento quem adquiriu?
D. João – O meu convívio com os pobres se tornou uma grande universidade. A criatividades dos pobres, que as vezes não tem nada para sobreviver, mas como a esperança é tão forte. Tanta gente que não tem nada, mas com a fé em Deus “eu vou vencer”. Esse contato com os pequenos foi uma grande experiência, tanto no crescimento humano como espiritual pra mim. Também o contato que tive com os detentos nos presídios, me proporcionou um grande aprendizado. O contato com os jovens da Fazenda da Esperança, que mesmo diante do problema das drogas, se seduziram por Jesus, deixando essa vida de drogas pra trás e começando uma nova vida baseada em Jesus.

gerAção – Uma frase.

D. João – “Eu vim para que todos tenham vida e a tenham em abundância” – Jesus Cristo.

gerAção – Qual a impressão que o Senhor leva do povo piqueense?
D. JoãoUma impressão muito preciosa, muito boa, muito bonita; de um povo realmente muito acolhedor, simples e, acima de tudo, um povo que vive uma fé muito intensa. É realmente um povo de Deus que leva adiante a sua vida moldada e orientada pela palavra de Deus. Sendo para descrever esse povo eu diria: “um povo corajoso, alegre, animados na forma de se comunicar, de acolher e de celebrar. Penso que seja um grande dom de Deus. Uma comunidade cheia de vitalidade.”


Por Cinésio Lima

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