sábado, 30 de maio de 2009

PELOS CAMINHOS DA HISTÓRIA - 1

O TREM DA MORTE

Texto: Osmar Lucena Filho

Às margens da estrada de ferro, mais precisamente à altura do quilômetro 322 da antiga Rede de Viação Cearense – futuro leito da Transnordestina! – encontra-se um Cruzeiro, erguido no ano de 1952, por iniciativa do primeiro vigário de Piquet Carneiro, Pe. Freire (*1921+1996), e do então Prefeito Municipal de Senador Pompeu, o cidadão Acrísio da Silva Jácome (*1909+1999).  Lembremo-nos de que Piquet Carneiro era, na ocasião, distrito de Senador Pompeu.

 O “Monumento Fúnebre” em questão foi edificado em lembrança e sufrágio dos que morreram no grande acidente de trem, transcorrido nas primeiras horas da manhã do dia 17 de dezembro de 1951, uma segunda-feira, em Piquet Carneiro. Assim, os que passam por aquelas redondezas, vendo-o, podem erguer o pensamento para Deus e, no murmúrio de uma prece, entrar em sintonia com o mistério da morte, enigma maior do ser humano, à qual ninguém pode escapar.

Contudo, para quem não foi “testemunha ocular” do acidente de 1951, ou mesmo não pesquisou sobre a magnitude e repercussão deste – cuja trágica notícia chegou a terras longínquas! – torna-se impossível “avaliar” o “peso” histórico, não obstante triste,  do lamentável acontecimento.

Com, aproximadamente, uma centena de mortos, o trem de passageiro, a trafegar à aurora daquele  17 de dezembro de há 58 anos,  entrou para a História da Ferrovia no Ceará, sob o epíteto,  nada apreciável, de “O Trem da Morte”.

Segundo o jornal O Povo, principal periódico da época, a causa do desastre fôra, indubitavelmente, o excesso de velocidade que, à locomotiva,  de prefixo 612, imprimira o maquinista-condutor, de nome João Cruz, o homem sobre cujos ombros recaiu a maldição das famílias enlutadas.

Ainda segundo “O Povo”,  nos serviços ambulatoriais, no que tange às amputações de braços e pernas de grande parte dos feridos, “até serrotes comuns de carpinteiro” foram usados.  O quadro de dor pode-se revestir de contornos ainda mais fortes, se levar-se em conta que,  em face de tais intervenções cirúrgicas,   não foram usados  anestésicos...

No rol das vítimas fatais, gente que vinha de municípios do Estado da Paraíba, tais como Souza, Pombal, Cajazeiras; do Ceará,  passageiros naturais de Iguatu, Cedro, Aurora, Saboeiro, Acopiara, entre outros.

Nos cartórios locais – o de registro civil e o eclesiástico – pode-se encontrar o assentamento de óbito de algumas das vítimas.

O Cruzeiro tornou-se, no correr do tempo, meta de peregrinação; local, portanto,  ao qual  os crentes se dirigem  com o intuito de orar, de pagar promessas, de implorar, mercê de Deus, a cura dos males que lhes aflingem o corpo e a alma.

Há, infelizmente, os que deturpam a santidade daquele ambiente, banhado pelo sangue de crianças inocentes até, tornando-o uma espécie de “motel” da cidade...

Solitário às margens do leito ferroviário, o Cruzeiro, na sua linguagem silente, parece estar clamando das autoridades competentes  sua  “perene conservação”,  para que não lhe ocorra o que, de fato,  aconteceu  com o “Monumento à memória do Capitão  J. da Penha”, em Ibicuã, destruído pelos que não têm respeito pela preservação da memória e da cultura do nosso povo!

Ele, o Cruzeiro, é parte integrante da História de Piquet Carneiro!  Preservemo-lo, pois!

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